Do Unheimliche em Freud ao Unheimliche primitivo em Bleichmar: algumas considerações sobre o itinerário de um conceito
Palavras-chave:
Unheimliche, Sigmund Freud, Silvia Bleichmar, recalque, constituição da subjetividadeResumo
O artigo investiga o itinerário conceitual do Unheimliche freudiano até sua reelaboração por Silvia Bleichmar sob a forma de um “Unheimliche primitivo”. Parte-se da constatação de que a pluralidade de traduções do termo alemão — do inglês the uncanny ao francês l’inquiétante étrangeté, passando pelas soluções espanholas (lo siniestro, lo ominoso) e portuguesas (o estranho, o inquietante, o infamiliar) — evidencia a densidade conceitual e a persistência hermenêutica do texto de 1919. A partir disso reconstrói-se a formulação freudiana do conceito, articulando-o à dialética entre heimlich e unheimlich, ao fenômeno do duplo (Doppelgänger) na leitura do conto de E. T. A. Hoffmann e à operação metapsicológica do recalque (Verdrängung), segundo a qual o efeito de estranhamento resulta do retorno de algo outrora familiar e recalcado. Em seguida, o artigo analisa o uso pontual, porém teoricamente denso, que Silvia Bleichmar faz do termo em seus seminários de 2005 nos quais o conceito é deslocado do campo das experiências relacionados ao retorno do recalcado para os tempos constitutivos da subjetividade, associando-se ao asco e ao pudor como precursores do recalcamento e como primeiros diques morais. Conclui-se que a noção de Unheimliche primitivo, embora preserve a mecânica freudiana de inversão do prazeroso em estranho, desloca seu eixo relacional do outro para a relação do sujeito consigo mesmo, cumprindo função auxiliar na constituição da subjetividade e da moralidade incipiente.